A invasão das libras
Outra cifra estrangeira que entrou no país com grande força foi a libra esterlina dos ingleses. O fundo de investimentos Trading Emissions PLC (TEP) direcionou cerca de R$125 milhões para a construção de uma usina em Goiás. O perfil de investimentos do TEP é voltado exclusivamente para unidades geradas por Mecanismos de Desenvolvimento Limpo: o fundo só negocia em commodities ambientais.
Quem deu as boas-vindas ao aporte inglês no Brasil foi a Bionasa, cujos proprietários atuam também no segmento de tabaco e produtos adoçantes para consumo humano e culinário. Segundo o presidente da empresa, Francisco Barreto, foram empregados dois anos de projetos na prancheta, com o auxílio de técnicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para convencer o fundo internacional. “Para conseguir investimento externo, o empresário brasileiro precisa se cercar de bons profissionais e de um belo projeto, porque as exigências dos países estrangeiros não são poucas”, aponta.
Algumas nuances tornaram o projeto atrativo para o capital estrangeiro. Em primeiro lugar, a escolha do local. “Goiás tem condições de crescimento e absorção de necessidades de matéria-prima, além de contar com disponibilidade de mão-deobra”, comenta Barreto. “Além disso, o estado negociou incentivos fiscais e se mostrou receptivo à idéia”, completa. Outro ponto considerado positivo foi a facilidade de acesso aos transportes no local, já que o complexo da Bionasa está estrategicamente localizado próximo de um terminal da Ferrovia Norte- Sul – que deve entrar em operação em 2011 – e da rodovia Belém-Brasília.
Por fim, o tamanho da usina e a capacidade de gerar valor agregado também foram de fundamental importância. É o que garante que o capital investido vai gerar benefícios locais. “Nestes casos, como o componente mais importante para a produção – a matéria-prima – é conseguida no país, a maior parte da geração de valor também fica aqui”, explica Ribeiro, da Metacortex.
O complexo industrial da Bionasa, que fica em Porangatu (GO), começou a ser construído em agosto de 2006 e estará pronto para operar em julho de 2008. Ele possui 85 mil metros quadrados, dos quais quase 60 mil são de área construída. Em uma primeira etapa, a usina deve produzir cerca de 180 mil toneladas/ano de biodiesel e gerar até 126 empregos. Mas a expectativa é que, em 2010, a fábrica passe a produzir 400 mil toneladas/ano. A Bionasa utilizará produtos vegetais, como girassol, soja e pinhão-manso, como insumos. “Já estão sendo contratados agricultores – que vão ter a compra da matéria-prima garantida – para a produção de girassol no Centro-Oeste, sul do Tocantis, oeste da Bahia e Triângulo Baiano”, antecipa Barreto.
Ao contrário da Bioauto, a empresa visa à exportação no curto prazo. “Seríamos loucos se não considerássemos isso. O Brasil já pode ser facilmente atendido, por isso estamos livres para o mercado externo”, afirma Barreto. O mercado brasileiro de biodiesel será de cerca de 800 mil toneladas a partir de 2008, face à obrigatoriedade do B2 (mistura de 2% de biodiesel ao diesel de petróleo). Somente a capacidade de produção da Bionasa – 440 mil toneladas – cobre 50% da necessidade total do país. “Por isso já temos três opções de contratos em estudo com países como Itália, Espanha, EUA e Suíça”, conta Barreto.
O recurso internacional investido na Bionasa não será direcionado a uma ação específica da empresa. Ao contrário, todas as etapas do projeto contaram com a verba do fundo inglês. A participação acionária do TEP não é divulgada, mas Barreto afirma que os ingleses não são sócios majoritários no negócio. No total, contando com o aporte da TEP, serão investidos R$ 256 milhões no complexo da Bionasa.