Itália: Cadê a matéria-prima?
Se já não bastasse a burocracia do governo, o país enfrenta também um problema comum a vários países europeus: falta de matéria-prima. Atualmente, os hectares usados no país para o biodiesel são muito menores do que o previsto. Os especialistas do setor na Itália garantem que cerca de cinco milhões de hectares poderiam ser usados para o cultivo de plantas para produzir biocombustíveis. No entanto, segundo dados do Ministério das Políticas Agrícolas Alimentares e Florestais, até julho deste ano foram cultivados apenas 45 mil hectares de oleaginosas para o biodiesel. A maior parte das terras é ocupada com produções de girassol (22 mil hectares), soja e canola (10 mil hectares) – principais matérias-primas usadas no processamento do biocombustível no país.
Para aumentar o cultivo estão sendo feitas negociações. O setor agrícola italiano conseguiu fazer um acordo com organizações que representam industriais e produtores. Assim, esperava-se que para este ano o cultivo de sementes para fins energéticos subisse para 70 mil hectares. Novamente a burocracia retardou os processos, já que os decretos executivos que autorizariam esse plantio estão atrasados. “Deveriam ter saído em abril, mas estamos em outubro e, até agora, nada”, comenta o engenheiro Gaetano Mastrandea, da Naturfuels, empresa que constrói e comercializa máquinas para a produção de combustíveis.
Ele diz que as instalações e máquinas vendidas neste momento são, na maior parte, para a produção do diesel de petróleo. Apenas um número pequeno é destinado para o processamento de biodiesel. “Esse é o mercado atual”, reclama. E desabafa: “Os outros países têm percentuais muito mais altos de obrigatoriedade. Na Itália não conseguimos nem 1%”.
O que se sabe é que as áreas destinadas hoje às culturas usadas no biodiesel não dão conta de abastecer o setor e ainda sofrem uma forte competição com os alimentos (veja o quadro na página anterior). Por causa disso, a saída encontrada tem sido comprar matéria-prima de outros países. Os produtos agrícolas importados mais comuns são os óleos de colza e de dendê, que vêm do sul da Ásia. “Não estamos felizes em importar matéria-prima da Malásia, da América do Sul e da África”, esclarece o professor de energias renováveis da Universidade de Florença David Chiaramonti. E pondera: “Os países produtores, como o Brasil, vão querer sempre exportar toda a matéria-prima?”.