Produtores brasileiros questionam o papel da agricultura familiar
Revista BiodieselBR Produtores brasileiros questionam o papel da agricultura familiar no programa de biodiesel, pois muito é gasto em treinamento e assistência para esses agricultores...
Sergio Sepúlveda É preciso entender que o tipo de desenvolvimento com inclusão social que o governo brasileiro está promovendo requer tempo para amadurecer e se consolidar. Essa é uma proposta definitivamente de longo prazo. Não se deve esperar que as falências estruturais e as tendências históricas excludentes possam ser revertidas no curto prazo. Vale lembrar ainda que o bem sucedido programa do álcool (Proálcool) passou por diversas etapas durante cinco décadas – período em que foi subsidiado até atingir a consolidação. A contribuição pública viabilizou a produção de cana-de-açúcar e a agroindústria de transformação. Ao mesmo tempo facilitou a distribuição e ajudou a criar demanda com incentivos para a compra de carros a álcool. E vemos que esse processo de meio século, com total apoio público, agora é um sucesso mundial.
Revista BiodieselBR Essa experiência com o álcool deve dar respaldo ao programa de biodiesel?
Sergio Sepúlveda Sim. Acredito firmemente que o engajamento da agricultura familiar na produção de biodiesel deve ser apoiado em uma proporção e durante um período de tempo similares. Da mesma forma que inúmeros outros produtos - cujas matérias-primas vêm da agricultura -, o biodiesel gerará impactos positivos e negativos. Isso vai depender do marco jurídico, das políticas e instituições de cada país, bem como das condições climáticas e dos modos de produção usados.
Revista BiodieselBR O senhor já mencionou em algumas palestras que a produção de matéria-prima deve preferir sistemas integrados de produção. Como seriam esses sistemas?
Sergio Sepúlveda O biodiesel é tido como um possível motor de desenvolvimento para o setor rural e a agricultura familiar. Mas essa defesa deve ser s u s t e n t a d a em princípios simples como a adequação do tipo de cultivo e das tecnologias à lógica da agricultura familiar. Também devem ser levadas em conta as condições ambientais das áreas rurais e a promoção de escalas de produção, considerando as características sociais da agricultura familiar e a situação econômica de cada empresa. Por fim, levando-se em conta todos esses fatores, é preciso promover aqueles cultivos cujas características de produção, tradição cultural e potencial de uso sejam compatíveis com a lógica da agricultura familiar.
Revista BiodieselBR A agricultura familiar estaria restrita à produção desses cultivos?
Sergio Sepúlveda Não. Os sistemas integrados de produção podem variar, mas estão sujeitos às características de cada lugar. Mas estamos falando de cultivos que misturam a produção de alimentos (como é o caso do amendoim) com alguma cultura para produção de biodiesel. A Embrapa tem trabalhado nessas opções por décadas e acredito que está prestes a continuar avançando nas pesquisas. Portanto estamos propondo uma adequação em mão dupla. A agricultura familiar deve se preparar para gerir unidades de escalas maiores e mais complexas. Mas, ao mesmo tempo, os processos de transformação, a escala, as tecnologias e a distribuição tendem a se adaptar à agricultura familiar.
Revista BiodieselBR Em um país como o Brasil, onde a área agrícola ociosa é muito grande, pode existir concorrência entre alimento e energia?
Sergio Sepúlveda Acredito que não existe perigo de uma competição, em curto prazo, entre a produção de alimentos e a de biodiesel. No entanto, é difícil avaliar os possíveis impactos na produção de alimentos no médio e longo prazo caso haja uma expansão rápida da produção de matéria-prima para o biodiesel.
Revista BiodieselBR E no restante do mundo, teremos um aumento inevitável nos preços das matérias-primas por causa dessa briga?
Sergio Sepúlveda Parece lógico que os preços dos alimentos possam sofrer um aumento significativo. De fato, essa tendência já começou a se observar nos últimos anos. Em grande parte é resultado da globalização e do aumento vertiginoso da demanda por alimentos em outros países, especialmente a China e a Índia. Isso pouco ou nada tem a ver com o programa de produção de biodiesel no Brasil. Porém, essa observação nos lembra que é impossível separar processos tão complexos como a produção de energia e a de comida. Os especialistas concordam que uma das principais causas da escalada de preços dos alimentos é a demanda acentuada de matéria-prima para o etanol e o biodiesel – como milho, cereais, palma, açúcar e soja. A necessidade desses produtos tem induzido a altas nos preços, incrementando os custos de produção de derivados como carne, lácteos, aves, ovos e bebidas alcoólicas. Obviamente, os aumentos nos custos de produção chegarão aos consumidores.