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Fome zero

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Outro ponto positivo em favor do biodiesel animal é que não há Hugo Chávez que possa colocar defeito no processo. O presidente da Venezuela, seguido por diversos outros políticos em todo o mundo, levantou dúvidas sobre a validade de se usar produtos de origem vegetal em produção de combustíveis. A teoria dele é de que o novo uso da matéria-prima poderia aumentar preços e contribuir para o avanço da fome no Terceiro Mundo.

Tese favorável, evidentemente, a um país que depende brutalmente das receitas trazidas pelo petróleo e tem motivos de sobra para defender o seu produto de exportação. Mas experiências passadas acabam por servir de embasamento para a tese do venezuelano. “A competição foi visível no caso do álcool e açúcar no mercado global, levando ao desabastecimento de álcool no Brasil no início dos anos 1990 – o que proporcionou um completo descrédito dos clientes de álcool combustível na época”, afirma Cláudio Bellaver, da Embrapa. Mas o sebo do boi e os outros óleos de origem animal não sofrem este risco de “competição”, já que muito pouco desse material é hoje usado como insumo de produtos alimentícios no país e no mundo.

Quem aposta no sebo

A Bertin é a única indústria do país que atua exclusivamente hoje com a produção de biodiesel a partir de produtos de origem animal. No entanto, o insumo vem ganhando adeptos e parece cada vez mais fortalecido no mercado nacional. Uma pesquisa recente realizada pelo grupo BiodieselBR mostra que das 119 usinas comerciais instaladas ou em implementação no Brasil, 42 informaram que pretendem utilizar sebo entre suas matérias-primas. Isso não quer dizer que elas desejem deixar de lado as gorduras vegetais: a idéia é somar forças.

O caso da Bertin, que investiu R$ 42 milhões para ter uma indústria capaz de gerar 110 milhões de litros de biodiesel por ano, é bastante específico. A empresa já trabalhava com matéria-prima bovina para outros gêneros de produção. Com a chegada do projeto de biodiesel, o investimento necessário foi consideravelmente reduzido. Agora, com a obrigatoriedade da inclusão de 2% do combustível verde no diesel de petróleo a partir de 2008, a empresa paulista prevê um crescimento para o mercado.

O processo utilizado para produzir biodiesel a partir de gordura animal é basicamente o mesmo dos óleos vegetais: é a transesterificação. Trata-se da reação da gordura com um álcool, impulsionada pela presença de um agente catalisador.

No caso da Bertin, o álcool utilizado é o metanol. Como resultado, obtém-se biodiesel e glicerina. E como nesse mundo nada, ou quase nada, se perde, também a glicerina pode acabar tendo uma finalidade industrial. Se aproveitada, ela pode virar insumo aos segmentos farmacêutico, cosmético e químico.

Na Bioverde, a estratégia tem sido utilizar 30% de biodiesel feito de gordura animal e 70% de óleos vegetais (soja). Isso dá um resultado com bom custo e boa qualidade. Lá, eles venceram o desafio de adaptação dos tanques de produção para uma temperatura mais alta, para derreter o sebo animal. “Como o ponto de endurecimento é diferente, temos que trabalhar com aquecimento”, afirma José Pereira Júnior, da usina Bioverde, que fica em Taubaté, São Paulo.

Para os técnicos da usina, um dos problemas do mercado é que a indústria farmacêutica pega o melhor pedaço da gordura animal. Ao biodiesel, muitas vezes resta o material de segunda linha, com mais impurezas. Como os cosméticos têm contratos mais antigos e longos, essa situação deve demorar alguns anos para se resolver.