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Negócios a partir de resíduos

O caso da Agropalma é diferente. Durante 25 anos, a empresa dedicou- se a produzir óleo de palma (dendê) e palmiste no município de Tailândia (PA). A finalidade era fazer margarina, gorduras para fritura, biscoitos e outros produtos nessa linha. A empresa, no entanto, tinha um resíduo de produção, uma borra – mistura de ácidos graxos – que, além de poluente, não tinha a menor utilidade.

Com um problema em mãos, no ano 2000, os diretores da Agropalma procuraram o professor Donato Aranda, responsável pelo Laboratório de Tecnologias Verdes Greentec, da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Naquela época, pouca gente pensava em biodiesel no país. “Com o baixo preço do petróleo, diferentemente de hoje, só tinha sentido fazer biodiesel se fosse a partir de um resíduo”, conta o professor. Dessa conclusão até à viabilidade do produto, Aranda se dedicou bastante.

Foi em 2003 que ele depositou a patente do biodiesel que aproveita 95% dos ácidos graxos obtidos a partir da produção do óleo de palma. Segundo Aranda, existem muitas vantagens para o uso desta matéria-prima: é mais pura, não contém glicerina, é mais barata e os motores tradicionais dos veículos a diesel não precisam ser adaptados.

Em 2005, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou a usina de palmdiesel no bairro de Tapanã, em Belém (PA). O investimento foi de R$ 3 milhões para uma capacidade de produção de cerca de 8 milhões de litros/ ano. Para a Agropalma, a vantagem da utilização desta matéria-prima foi grande. O palmdiesel substituiu em 100% os 3 milhões de litros de diesel convencional anual que se usava na frota de tratores e veículos para o cultivo da palma. O excedente de 5 milhões de litros é vendido para a Petrobras. E a empresa conseguiu solucionar a questão do resíduo de ácidos graxos.

Parceria é a chave

Por trás de todos os casos bemsucedidos de implementação de tecnologia 100% nacional na área de biodiesel, está o investimento maciço em pesquisa. Em 2006, o governo Lula anunciou que seria direcionado um total de R$ 355 milhões em pesquisas e desenvolvimento no setor, recursos vindos principalmente dos fundos setoriais. “Especialmente em 2006 e 2007 a pesquisa em biodiesel tem sido uma prioridade do governo e os pesquisadores têm tido financiamento mais facilmente”, confirma Aranda.” E não estou falando apenas da região Sudeste, que normalmente fica com a maior parte do investimento”, completa.

O químico e professor da Universidade Estadual de Campinas, Ulf Friedrich Schuchardt, também é otimista. “O Brasil, ao lado dos Estados Unidos e da Espanha, tem no momento a maior quantidade de estudos na área de biodiesel”, afirma. Schuchardt faz questão de frisar que todos os projetos bem-sucedidos são feitos com a fórmula universidade + empresa.

A aproximação do mercado produtivo com a universidade é uma união muito feliz, já comprovada em países desenvolvidos. A TecBio também incentiva a parceria: “Enxergamos as universidades e centros de pesquisa como forças complementares”, conta Expedito Junior. “Não temos vocação de pesquisa básica descompromissada, assim como a universidade não tem preocupação comercial”.

Nessa parceria, o caminho natural seria o surgimento de patentes. Porém, é difícil estabelecer com segurança os números na área. No Brasil, a partir de 2002, o professor Ulf acredita que foram depositadas apenas dez patentes sobre o assunto. Ele requereu oito, contando as que foram pedidas fora do Brasil.

Para um setor em pleno crescimento, dez depósitos nacionais podem parecer pouco. Especialmente por ter sido o Brasil o primeiro a obter uma patente em biodiesel – aquela do professor Expedito, em 1980. Mas há muitas variáveis que podem explicar o número.

A primeira, uma queixa geral de pesquisadores de todas as áreas, é a demora no processo das patentes, que pode chegar a sete anos. “Até a patente sair, a tecnologia já ficou obsoleta”, explica Expedito Junior. O que a TecBio faz, em vez de patentear, é proteger suas inovações através de instrumentos jurídicos, contratos que garantem o uso da tecnologia, mas não a transferência dela.

O Laboratório de Pesquisas Verdes Greentec, capitaneado pelo professor Aranda, tem 14 depósitos de patentes, contando as internacionais. Na parceria com a Agropalma, 100% da patente ficou em nome da Universidade Federal do Rio de Janeiro e os royalties foram licenciados para a empresa. Portanto, não há segredos e a fórmula do sucesso é apostar em parcerias que trazem ganhos para as universidades e as empresas.