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Guerra entre gigantes e nanicos

De uma forma ou de outra, a questão é que há furos na entrega e na retirada do combustível comprado pela Petrobras. A falha estaria acontecendo devido a vários fatores, entre eles, a dificuldade de se obter matéria-prima. A causa do problema não estaria nas indústrias
e, sim, na lavoura.

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Ao criar o Programa Nacional de Biodiesel, o governo tomou uma decisão audaciosa: estipulou que a produção do combustível verde estaria atrelada à agricultura familiar, servindo, assim, como instrumento de inclusão social. O problema é que a agricultura dos pequenos não acompanhou os investimentos dos grandes usineiros. Sem estrutura e com opções insuficientes de financiamentos agrícolas, pequenos produtores viram seus custos subirem às alturas e muitos tiveram dificuldades em cumprir os contratos. E, sem matéria-prima, quem perde são as usinas. Foi o que aconteceu com a Granol.

Hoje a produção da empresa está sustentada no óleo de soja produzido nas plantas próprias. Mas 14% da matéria-prima vêm da agricultura familiar. Ao optar por pequenos fornecedores, a indústria recebeu do Ministério do Desenvolvimento Agrário o Selo Combustível Social, um instrumento do governo federal de estímulo aos pequenos produtores que prevê benefícios
fiscais para usineiros que optem por essa mão-de-obra.

Em contrapartida, viu-se de mãos vazias na hora de receber a matéria-prima contratada. “Tivemos vários casos de inadimplência dos contratos da agricultura familiar porque os produtores não conseguiram recursos financeiros suficientes e em tempo hábil para o plantio”, conta a diretora financeira da Granol, Paula Regina Gomes Cadette Ferreira. De acordo com a executiva, a empresa compra os grãos com preços acima do mercado e oferece assistência técnica no plantio e na solicitação de financiamento bancário mas, nem assim, a produção é satisfatória. “Não temos condições de prover os produtores de todo o recurso necessário”, afirma a diretora.

O contraste é claro. É uma guerra de gigantes contra nanicos. Enquanto as usinas estão equipadas com tecnologia de ponta, os produtores amargam burocráticas filas para conseguir financiamento agrícola. “O governo faz as contas a partir da capacidade de produção instalada, mas as máquinas só funcionam se houver matéria-prima”, alerta o senador João Tenório (PSDB-AL), presidente da Subcomissão Permanente de Biocombustíveis (Crabio), que funciona no âmbito da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado. “As indústrias se prepararam, mas a produção agrícola ainda não”, complementa.

Um dos entraves para o financiamento é a falta do zoneamento agrícola, um estudo do Ministério da Agricultura que determina quais culturas devem ser plantadas em cada região. Para conseguir a liberação de recursos os produtores devem cultivar as oleaginosas previstas nas análises.

A questão é que, quando se trata de matérias-primas para o biodiesel, sobram incertezas e faltam pesquisas que dêem garantias de uma boa colheita. Por isso, o governo federal promete, mas não libera o zoneamento. Sabe-se hoje que existe uma infinidade de plantas aptas a produzir biodiesel, entre elas o girassol, o dendê, a mamona e o pinhão manso. Mas 90% da produção é feita com soja. E há umarazão simples para isso. A oferta de soja hoje é imensamente maior se comparada ao sebo bovino e às outras plantas, que ainda passam por estudos de viabilidade econômica e produtividade.