Gigante em crise
A Alemanha, considerada o país mais avançado do mundo no programa de biodiesel,
tem produção recorde de 5,4 milhões de toneladas, mas enfrenta desafios para
manter o combustível competitivo sem os subsídios do governo
Por Neide Oliveira, de Dresden, na Alemanha
Quem viaja pelo interior da Alemanha, de carro ou trem, não deixa de reparar na bela paisagem. No mês de maio, os campos são como um mar amarelo formado pelas pequenas flores de colza (Brassica napus), principal matéria-prima na composição do biodiesel do país. E não é só nos limites dos campos que o mercado alemão de biodiesel, o maior do mundo, é tão fértil.
Hoje, mais de dois milhões de hectares de terras agricultáveis da Alemanha são utilizadas para o plantio de matérias-primas para a indústria de energia - cinco vezes mais que no final dos anos 1990. Cerca de 1,1 milhão de hectares são reservados à colza.
A razão para se plantar tanto essa matéria-prima está atrelada ao fato de o biodiesel ser um negócio muito vantajoso na Alemanha. Uma de suas maiores alavancas, nos últimos anos, foi o apoio governamental. Em 2004, o ex-chanceler Gerhard Schröder, resolveu livrar o setor de taxação. Isso custou, por ano, nada menos do que dois bilhões de euros aos cofres do governo alemão.
A injeção de investimentos em energias renováveis e ecologicamente corretas foi imprescindível ao crescimento do setor e a resposta foi imediata: um aumento surpreendente na capacidade de produção. De 270 mil toneladas em 2000 para 3,8 milhões de toneladas no final de 2006. Neste ano, espera-se um novo recorde, com números em torno de 5,4 milhões de toneladas.
Mudanças à vista
Como parte da política alemã de biodiesel, a era de tantas subvenções para o setor está perto do fim. O grande choque aconteceu no último ano, quando o combustível passou a ser taxado. Depois da taxação – ocorrida exatamente quando o biodiesel se tornava mais popular – cada litro do produto encareceu nove centavos de euro. Como resultado, ações caíram, pequenas refinarias precisaram encerrar as atividades e empresas de transporte, campeãs no uso do biodiesel, voltaram a abastecer sua frota com combustíveis fósseis. E as mudanças continuam.
O programa do governo prevê que a taxa cobrada do combustível fique seis centavos de euro mais cara por ano até 2012, quando poderá atingir a marca dos 45 centavos por litro, um número inimaginável para os produtores. “O imposto é irresponsável e vai contra tudo o que a chanceler Angela Merkel diz que quer”, afirmou à imprensa local o presidente da Neckermann Renewables, também presidente da Global Alternative Energy Germany (GATE), Dieter Heisig. “Se o próximo nível de imposto for introduzido, será a morte do setor”, sentencia.
Para os menos pessimistas, o Estado ainda possibilita algumas garantias de mercado. A proposta do governo traz uma cláusula em parte vantajosa para os produtores: a adição de 5% de biodiesel em cada litro do diesel convencional vendido no país até 2012, o que poderia garantir um mercado para, pelo menos, 1,5 milhão toneladas do produto. “Há hoje dois desenvolvimentos opostos no setor”, afirma Elmar Baumann, diretor da Associação da Indústria Alemã de Biocombustível. “De um lado a produção continua crescendo e, por outro, as taxas em 2008 irão afetar as vendas de B100”, completa.
A taxação do biodiesel é o
debate do dia no setor. As revistas
de economia e jornais trazem
diariamente artigos que discutem
a necessidade da continuidade da
subvenção governamental e equiparam,
por exemplo, a real utilidade
dos combustíveis renováveis
com os motores menos poluentes.
Em Berlim, políticos do Partido
Social Democrata entenderam a
demanda dos produtores e prometeram
tentar uma possibilidade de
rever a taxação sobre o biodiesel.
Enquanto não se chega a uma solução,
a produção segue superando
expectativas. A quantidade de biodiesel
produzida no ano passado é
nada menos que 18 vezes maior do
que a de 2000. A Alemanha produz
cinco vezes mais que seu maior
concorrente na Europa, a Itália, e
movimenta nada menos que 2 bilhões
de euros por ano.